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29 de agosto de 2026·Anatolii Valeev

Flashcards no Brasil: quais métodos e quais apps de repetição espaçada valem a pena

Comparação dos métodos usados no Brasil (24/7/30, decks prontos, cards de questões) e dos apps de repetição espaçada: Anki, Quizlet, Memor More e outros.

O Enem 2026 tem 5,05 milhões de inscrições confirmadas e provas marcadas para 8 e 15 de novembro. A última edição do CNU reuniu 761.545 inscritos disputando 3.652 vagas. Some a isso OAB, residência médica, Revalida e os concursos estaduais, e você tem alguns milhões de pessoas fazendo a mesma pergunta neste momento: como revisar tanta matéria sem esquecer o que estudou em março.

Flashcard é uma das respostas possíveis. Só que "usar flashcard" no Brasil quer dizer pelo menos cinco coisas diferentes, e a escolha do app é a menor delas. Abaixo estão os métodos primeiro e os aplicativos depois, com preços em real e as ressalvas que as listas de "melhores apps" costumam pular.

Resumo rápido

  • O método 24/7/30 é o mais popular entre concurseiros e o que mais entope a agenda, porque intervalos fixos ignoram o que você já domina.
  • A repetição espaçada com algoritmo resolve esse gargalo, mas cobra constância diária para pagar o investimento.
  • Tirar os cards das questões que você errou é o hábito que mais separa quem usa flashcard bem de quem usa mal por aqui.
  • O Anki é imbatível no Android e caro no iPhone: R$ 149,90 contra R$ 0 do AnkiDroid.
  • Decks prontos custam de R$ 89 a R$ 400 e vêm com a curadoria de outra pessoa embutida.
  • O Memor More é a opção de menor fricção para quem já está no iPhone, iPad ou Mac. Para Android ele não existe.

Parte 1: os métodos

Revisão 24/7/30

É o padrão de fato do mundo dos concursos: revisar 24 horas depois do estudo, de novo em 7 dias e de novo em 30. A justificativa vem da curva do esquecimento de Ebbinghaus, e o método aparece em praticamente todo blog de cursinho, inclusive nos maiores.

A lógica está certa. O problema é aritmético. Como escreve o professor Diogo Moreira sobre uma aluna que seguiu o esquema à risca, "as revisões começaram a se acumular e ela, praticamente, só fazia revisões". Quem estuda quatro horas de conteúdo novo por dia soma uma hora de revisão de 24h, depois as de 7 dias, depois as de 30, e em dois meses o cronograma vira um redemoinho. A recomendação dele é cortar: fazer só as revisões de 24 horas e 7 dias, e deixar o resto por conta das questões.

O 24/7/30 trata todo conteúdo igual. O artigo de lei que você acerta há três meses recebe a mesma atenção que a súmula que você errou ontem. É exatamente aí que um algoritmo entra.

Repetição espaçada com algoritmo

Em vez de intervalos fixos, o app calcula quando cada card individual está prestes a ser esquecido e remarca a partir da sua resposta. Acertou fácil, o card some por semanas. Errou, volta amanhã. É a parte da discussão em que a pesquisa é chata de tão consistente. A revisão de Dunlosky et al. (2013) avaliou dez técnicas de estudo e classificou apenas duas como de alta utilidade: o teste de recuperação e a prática distribuída. Flashcard com algoritmo é o encontro das duas. A meta-análise de Adesope et al. (2017), com 272 tamanhos de efeito, achou vantagem média a forte do autoteste sobre as outras formas de estudar, e a síntese de Cepeda et al. (2006), com 839 comparações, mostra que distribuir o mesmo tempo em várias sessões retém muito mais do que concentrar tudo de uma vez.

A contrapartida é a constância. O próprio Estratégia Concursos chama o Anki de "ferramenta de estudos de médio/longo prazo" e avisa que começar a 60 dias da prova costuma sair pela culatra: o card precisa de tempo para amadurecer. Repetição espaçada usada aos trancos vira um monte de card vencido e culpa.

Card a partir de questão

Esse é o ajuste mais brasileiro da lista, e talvez o mais útil. A cultura de estudo aqui gira em torno de banca: Cebraspe, FGV, Cesgranrio e Vunesp cobram recortes diferentes do mesmo edital. Fazer card lendo o PDF do curso produz material genérico. Fazer card a partir da questão que você errou produz material calibrado pela banca.

Na prática: você resolve o bloco de questões, marca os erros, e para cada erro pergunta qual fato faltava. Esse fato vira um card, com uma informação só. A regra do "um cartão, uma informação" aparece em todo guia sério de Anki para concurso, e é o que separa um deck que você revisa de um deck que virou apostila digital.

Decks prontos comprados

Existe um mercado inteiro disso no Brasil, coisa que quase não se vê em outros países. Flashcards Táticos vende decks de área policial por R$ 89. O Anki do Delta trabalha na faixa de R$ 377 a R$ 397. O Esquematiza Aí anuncia mais de 5.500 cards cobrindo 16 disciplinas para PF, PRF, PC e PM. Para residência médica há equivalentes, como os flashcards do Med Trunfo e o material que acompanha o Aristo.

O ganho é óbvio: alguém já digitou. A perda é menos visível. Deck de terceiro reflete o que outra pessoa considera difícil, então você gasta revisão com o que já domina e continua sem card justamente onde erra. Além disso, deck grande comprado no domingo vira 400 cards vencidos na quarta. Quem se dá bem com deck pronto costuma usá-lo como base da disciplina e manter um deck próprio, pequeno, só de erros.

Resumo, grifo e releitura

Precisa entrar na comparação porque é o que a maioria faz. Nos dados de Dunlosky, releitura e marca-texto ficaram na categoria de baixa utilidade. O motivo é conhecido: na segunda leitura o texto parece familiar, e familiaridade se confunde com domínio. Na hora da prova não tem ninguém lendo a página para você. Resumo continua útil como fonte, para organizar a matéria antes de virar card ou questão. Como método de revisão, não se sustenta.

Comparação dos métodos

MétodoCustoO que a evidência dizFaz sentido quando
Revisão 24/7/30R$ 0Direção certa, intervalos fixos que acumulamVocê está nos primeiros meses e a matéria ainda é pouca
Repetição espaçada com algoritmoR$ 0 a R$ 150Combina as duas técnicas de alta utilidade (Dunlosky)Você tem meses pela frente e consegue abrir o app todo dia
Card a partir de questãoCusto da plataforma de questõesRecuperação ativa calibrada pela bancaVocê já resolve questão com regularidade
Deck pronto compradoR$ 89 a R$ 400Depende inteiramente da curadoria de quem vendeuFalta tempo para digitar e a carreira é padronizada
Resumo e grifoR$ 0Baixa utilidade como revisão (Dunlosky)Você precisa organizar a matéria antes de virar card

Parte 2: os apps

Anki

O Anki é a referência e provavelmente vai continuar sendo. Algoritmo aberto e documentado, FSRS disponível nas versões recentes, add-ons para tudo, sincronização própria e a maior biblioteca de decks compartilhados que existe. No Brasil ele ganhou tração dupla: entre concurseiros, por causa do volume de matéria, e entre estudantes de medicina, onde virou quase infraestrutura.

O ponto sensível é o preço no iPhone. O AnkiDroid é gratuito no Android e o desktop é gratuito no Windows, Mac e Linux, mas o AnkiMobile custa R$ 149,90 na App Store brasileira, onde tem nota 3,7. As avaliações em português são diretas: "preço absurdo e muito descaso com a versão iOS". Houve até um pedido formal de preço regional para estudantes brasileiros no fórum oficial, respondido com a explicação de que a Apple define o valor local a partir de impostos e custos do país.

Isso incomoda menos do que parece, porque cerca de 80% dos celulares no Brasil rodam Android. Para a maioria dos brasileiros, o Anki é simplesmente de graça.

Bom para: concurso longo, residência médica, idiomas em volume alto, quem aceita investir algumas horas na configuração. Ruim para: iPhone sem disposição de pagar R$ 149,90, e quem desiste diante de uma interface que não mudou muito em quinze anos.

Quizlet

Biblioteca gigante, interface amigável, modos variados de estudo e material pronto para quase qualquer disciplina do ensino médio. É o app que mais aparece em escola particular e em cursinho.

O que ele não é: um sistema sério de repetição espaçada. O modo de estudo adapta a ordem dos cards, mas o agendamento não é documentado nem comparável a SM-2 ou FSRS. O plano gratuito foi ficando mais estreito ao longo dos anos, com uso offline e recursos de IA atrás do Quizlet Plus, na faixa de US$ 35 por ano. Conteúdo de usuário também vem sem curadoria, o que em matéria de lei ou farmacologia é um risco real.

Bom para: ensino médio, trabalho em grupo, quem precisa de deck pronto agora. Ruim para: preparação longa em que o agendamento das revisões é o ponto principal.

Brainscape

Usa Confidence-Based Repetition: depois de cada card você avalia de 1 a 5 o quanto confia na resposta, e o app prioriza o que ficou baixo. A interface é limpa e há decks certificados para exames profissionais, quase todos americanos. A assinatura fica por volta de US$ 10 por mês, e o plano gratuito limita bastante. Para o mercado brasileiro o conteúdo pronto ajuda pouco, então sobram o algoritmo e a interface.

RemNote

Junta caderno de anotações e flashcard no mesmo lugar: você escreve em outline e transforma trechos em card sem sair do texto. Funciona bem para quem já estuda anotando, tipo faculdade de direito ou medicina. O SRS é baseado em SM-2 e não acompanhou o FSRS, e a curva de aprendizado do próprio sistema de notas é considerável.

Plataformas brasileiras de questões

Vale colocar na conta porque muita gente já paga por uma. O TEC Concursos tem flashcards dentro do aplicativo e acesso offline a parte do conteúdo, com planos anunciados a partir de R$ 1,33 por dia. O Qconcursos costuma sair mais barato para quem está começando, e o Estratégia Concursos integra revisão ao curso. Nenhuma delas oferece o controle de agendamento de um app dedicado de repetição espaçada, mas elas resolvem a metade que os apps de flashcard não resolvem: a questão de banca, com gabarito comentado e estatística de acerto por assunto.

Memor More

O Memor More é um app de flashcards para iPhone, iPad e Mac. Tem repetição espaçada, recuperação ativa obrigatória antes de mostrar a resposta, áudio por texto para voz, imagens e criação de cards com IA. A aposta é o contrário da do Anki: em vez de dar mil botões a quem quer ajustar tudo, ele tira a configuração da frente para você abrir e revisar.

O núcleo é gratuito e continua gratuito, incluindo cards ilimitados, revisão diária, áudio, imagens, compartilhamento de deck e a biblioteca pública. O plano premium, opcional, adiciona geração de cards por IA e estatísticas detalhadas, por algo em torno de US$ 4 por mês, com o valor exato variando por país. Os dados ficam no aparelho e sincronizam pelo seu iCloud, sem passar por servidor nosso, e a revisão funciona offline.

As ressalvas, sem rodeio: não existe versão Android nem web, o que exclui a maior parte do mercado brasileiro. A biblioteca de decks públicos hoje é forte em idiomas, história e ciências, e não tem material de concurso ou Enem em português, então você vai criar os seus cards ou importar do Anki. E o algoritmo não é publicado em detalhe como o FSRS, se auditar cada intervalo for importante para você.

Bom para: quem tem iPhone, achou o Anki pesado demais e quer o hábito diário funcionando na primeira semana. Ruim para: Android, e quem depende de deck pronto em português.

Comparação dos apps

AppPlataformasPreço no BrasilAgendamentoMelhor para
AnkiAndroid, iOS, desktop, webGrátis; R$ 149,90 no iOSFSRS ou SM-2Concurso longo, medicina, idiomas
QuizletAndroid, iOS, webGrátis; Plus ~US$ 35/anoAdaptativo, não documentadoEnsino médio, estudo em grupo
BrainscapeAndroid, iOS, webGrátis limitado; ~US$ 10/mêsConfidence-Based RepetitionInterface limpa, exames profissionais
RemNoteAndroid, iOS, web, desktopGrátis limitado; ~US$ 8/mêsBaseado em SM-2Anotação e card no mesmo lugar
TEC / QconcursosAndroid, iOS, webCerca de R$ 30 a R$ 60/mêsFlashcards sem agendamento adaptativoQuestão de banca com gabarito comentado
Memor MoreiPhone, iPad, MacGrátis; premium ~US$ 4/mêsSRS com recuperação ativaRotina diária sem configuração

E no seu caso?

Enem e vestibular. Faltam cerca de dez semanas. Não é hora de montar deck de tudo. Escolha o que é decoreba pura e ainda escapa: fórmulas de física, ciclos de biologia, datas de história, conectivos e repertório de redação, vocabulário de inglês ou espanhol. Vinte minutos por dia, todo dia, com o resto do tempo em simulado e redação. Quizlet resolve se você quer deck pronto hoje; Anki ou Memor More resolvem melhor se você vai criar os seus.

Concurso. Anki, se o edital é grande e sobrou tempo, de preferência combinado com uma plataforma de questões e com cards nascendo dos seus erros. Se o concurso é daqui a dois meses, esqueça montar deck do zero e vá de questão comentada. O guia de como memorizar um edital inteiro com repetição espaçada tem o passo a passo.

OAB. Prazo curto entre a inscrição e a prova, matéria previsível e muita decoreba de artigo. Card curto em formato de lacuna funciona muito bem aqui, feito a partir das questões da FGV, que repete padrões entre edições.

Residência médica e Revalida. O Anki virou quase infraestrutura nas faculdades de medicina, e existe deck brasileiro para quase tudo. Se você está no iPhone e quer algo mais leve para o dia a dia, vale ler a comparação entre Anki e Memor More antes de decidir.

Idiomas. É o caso em que flashcard rende mais com menos esforço, porque vocabulário é exatamente o tipo de conteúdo para o qual a repetição espaçada foi feita. Áudio no card faz diferença grande aqui.

Como o Memor More se encaixa

Se você está em iPhone, iPad ou Mac e o que te derruba é a constância, não o algoritmo, o Memor More foi construído para esse recorte: recuperação ativa antes de mostrar a resposta, agendamento de repetição espaçada por card, áudio e imagem sem add-on, criação com IA quando você não quer digitar, e os dados no aparelho ou no seu iCloud. É gratuito na App Store. Se você estiver no Android, a recomendação honesta é o AnkiDroid.

Fontes

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Escrito por

Anatolii Valeev

Fundador e desenvolvedor do Memor More. Eu crio aplicativos para iOS e Mac e escrevo sobre a ciência da memória e do aprendizado. @Jerelii no X